Hoje sinto-me especialmente
triste... além da inacreditável e maldita doença que me atacou o cérebro, a
bipolaridade pesei-me e engordei 15 kilos.... é obra....
Arrepia-me a alma saber que
tenho que conviver com esta doença a vida inteira e que tenho que tomar
medicação que me deixa quase inactiva... tenho saudades do meu eu, daquilo que
sou e que é muito. Sempre tive tendência para fazer muitas coisas ao mesmo
tempo e tinha capacidade para tal, agora o tempo é relativo , tudo se
transforma numa mão cheia de ilusões . É verdade que vivia iludida com as
ilusões, mas senti-me feliz com isso. Sentia que podia ser capaz de fazer tudo
até ao fim , mas a verdade é que deixei muitas obras inacabadas , gastei
dinheiro com cursos que não concluí e com amigos a quem ajudei.
É triste perceber que não
posso fazer tudo, quando era apaixonada pela vida , por tudo quanto a vida nos
reserva .
Mas talvez não seja assim tão
triste a vida. É bom saber que tenho amigos que se preocupam comigo, todos os
dias alguém me liga a saber se estou bem e isso é tão bom saber e sentir . Ok,
já não tenho a figura esbelta que tinha há uns meses atrás, mas é bom saber que
não é isso que motiva as pessoas a gostarem de mim. É bom saber que tenho
amigos verdadeiros que me alumiam a alma com palavras quentes de amizade . É
bom saber que o meu filho não se incomoda com a figura da mãe. Amizade essa é a palavra chave para a
felicidade . Amizade essa palavra feita amor que nos guia o nosso querer a todo
o instante . Tenho que ir tomar a minha medicação. Já tomei, agora apetecia-me
poemar a amizade, essa palavra feita amor que tanto me fascina.
Amizade
tu que me fazes vibrar
Entra em mim como uma flecha
Deixa-me saborear cada
palavra dita
Não me agudizes
Acalma-me
Preenche-me
Dita o meu caminho como uma
luz
eterna e perene
Não me deixes sozinha
Deixa-me sonhar contigo
Os caminhos do viver
Seduz-me com a alegria de um
sorriso
Não te incomodes com as aparências
Enche-me de ternura, afecto e
solenidade
Não me abandones
Não me deixes só
Estar a escrever acalma-me o
espírito, parece que não me sinto tão sozinha nem tão mal comigo própria.
Às vezes a tristeza
invade-me, mas logo o pensamento voa em direcção a histórias de gente que está
numa situação bem pior do que a minha. É verdade, preocupa-me saber que há
gente a morrer de fome e sem tecto, que vivem da caridade e que se aquecem em
cartões que caridosamente lhes ofereceram, ou que encontraram num ou noutro
caixote do lixo.
Tenho como sonho que cada
pessoa consiga ter a dignidade de um lugar quente e acolhedor, que cada pessoa se
possa sentir bem consigo própria. Mas a realidade que me circunda não me deixa
viver esse sonho que exalta os meus sentidos.
Se eu pudesse escolher
repartiria ainda mais aquilo que é meu, daria a cada uma dessas pessoas um
local digno.
É bom ocupar o tempo a
escrever, sempre me vou sentindo melhor.
Sou mãe, tudo o que faço tem
a responsabilidade e o peso dessa condição, tenho que me preocupar sobretudo
com isso, com a minha condição de mãe, e essa condição de mãe é envolver-me na
meninice e na infância dessa criatura que brotou de mim como uma flor brota do
caule de uma planta.
Queria reunir-me comigo e
envolver-me mais na vida activa e cívica.
É assustador ficar perante os
meus sonhos que não posso concretizar.
Quero tudo, aprender um
instrumento musical, cantar, brincar aos polícias e ladrões, ser agente de
bandas de jazz, ter uma revista de jazz a música que tanto me preenche a alma,
ter um café concerto onde muitas bandas e músicos possam tocar, um sítio onde
muitas pessoas possam expor os seus quadros , as suas fotos, deixar-me encantar
com a beleza da arte.
É assim a minha vida, feita
de sonhos , ambições desmedidas num país onde os artistas são tão mal tratados
.
Sonho com a criação de um
livro sobre património maltratado, com a realização de um filme sobre esse
património.
Mas parece-me uma tarefa tão
difícil que logo fico desanimada, na minha quietude. E aquieto-me, não deixo a
minha mente voar com medo de falhar essa ambição.
Queria que brotassem das
minhas mãos mil histórias , mil palavras sobre o que me apetece falar.
E apetece-me falar de mim,
mais uma pessoa invisível aos olhos de muitos mas com o coração a palpitar de
amor e alegria de viver.
No ano passado padeci de uma
depressão que me levou direitinha ao internamento de um hospital, decidi
revoltar-me contra a minha família e o resultado não foi o melhor, coisas da
política.
Considero-me uma pessoa com
ideais de esquerda e tenho tendência para ser artista apesar de nunca ter
conseguido sê-lo, mas sou apoiante dessa classe tão rebelde e lutadora e que
nos traz tantas alegrias.
Cresci no seio de uma família
social democrata, e inscrevi-me num partido com o qual não me identifico ideologicamente porque não
sou conservadora, apenas sou conservadora dos direitos humanos, do direito à
dignidade. Sempre fui educada nesse registo, no registo do despreconceitualismo,
na desconstrução do edificado. Filha, tu não podes ser racista , filha os
pobres também são seres humanos, filha segue sempre os teus sonhos, avisou-me
sempre a minha mãe.
Eu segui os seus conselhos,
mas tinha uma tia que me aconselhava em sentido oposto e isso deixou-me sempre
confusa .... o que fazer , que desassossego...
Quem respeitar, que percurso
seguir....
Depois de uma vida
associativa sempre muito activa, fiquei num impasse, queria ter seguido
relações internacionais mas não consegui ter média suficiente, também queria
ser jornalista mas uma vez mais não consegui ter média suficiente , que fazer
meu deus....
Inscrevi-me numa universidade
privada no curso que não queria por não acreditar no sistema, inscrevi-me em
direito....
Andei ali a marcar passo
durante os três primeiros anos, muito triste por não ter seguido o meu sonho ,
mas foi melhor assim , tenho que o admitir . O único problema foi que só tirei
boas notas às cadeiras que tinham a ver com as relações políticas
internacionais.
Depois havia a música ...
queria ser saxofonista . A minha mãe que sempre me entendeu ofereceu-me um
saxofone para eu aprender música e lá fui eu tentar aprender o magnífico
instrumento, primeiro na juventude musical portuguesa na Rua Rosa Araújo e
depois no Hot Club onde tentei aprender música jazzística.
Entretanto já trabalhava para
ajudar a pagar todas as minhas despesas que sempre foram muitas, sobretudo em
livros e música a minha paixão.
Comecei a trabalhar como
escrituraria dactilógrafa nuns serviços do Estado onde dactilografava os textos
que os senhores doutores me solicitavam para eu escrever e assim aprendi a arte
de escrever depressa e engenhosamente. Quando terminei o meu curso fui
reclassificada para jurista do gabinete jurídico dessa instituição.
Entretanto já havia desistido
do meu sonho de tocar saxofone , não conseguia conciliar o meu tempo, não tinha
tempo para treinar.
Foi com algum desgosto que
desisti do meu sonho.
Sonho
que acalentas com ternura
a voz do meu coração
traz-me outra vez essa
frescura
não me deixes, não
traz-me fadas e elfos
notas de música
efabula a minha vida
traz-me a riqueza de ter a
vida vivida
serei o que não posso
ouvirei o que não queria
mas desistir é muito triste
e a alma não prosperaria
Sou aquilo que sinto
Sinto aquilo que sou
Que há tristeza não minto
E a verdade soou
Tanta vida para viver
Tanto amor para dar
Tento fazer o meu querer
Que é a vida sem parar
Agora acalento o sonho de
fazer ouvir a minha voz, mas de uma forma artística, cantando.
É um sonho que me persegue já
há muito mas porque a vida não me o concedeu de uma forma inata.
Hoje estou especialmente
devota da preguiça, já almocei , já arrumei o quarto, algumas roupas, mas ainda
não tomei banho. Sei que devo cuidar de mim , ter objectivos firmes mas ainda
estou de baixa e isso leva-me a passar demasiado tempo em casa nas redes
sociais. Pareço uma desempregada, mas segundo a Isabel Jonet não deveria estar
nas redes sociais porque isso impede-me de procurar emprego.
Tenho a minha vida virada do
avesso, ainda agora fui a um workshop que só vai existir daqui a uma semana, de
manhã pensei que era domingo quando é sábado... enfim, o que fazer... penso que
seja da medicação que me deixa com falta de atenção, ou então estou mesmo com
um deficit de atenção crónico.
Gostava de poder mudar o rumo
da minha vida, apaixonar-me e ser correspondida , ter uma vida normal de uma
mulher de 39 anos, a caminho dos quarenta. Mas infelizmente não tenho. Tenho um
filho com 7 anos e uma mãe com 60 anos que vive connosco por causa do mal que
aconteceu comigo e com as minhas emoções. Sinto-me despojada delas, é muito
difícil rir-me, tenho alguma dificuldade em amar também, apetece-me estar
enfiada no meu casulo, sem ninguém a corromper o meu silêncio . Nos meus sonhos
consigo viver uma vida saudável, apagar o meu passado e viver o presente com
sabedoria. Sempre fui muito alegre e bem humorada, nunca fui mulher de me aquietar,
nunca gostei muito dos silêncios, as horas sempre serviram para ser vividas
como se o futuro acabasse no próximo instante. Sempre me apaixonei facilmente e
por ter meio palmo de testa e meio palmo cara e corpo nunca foi difícil
arranjar namorado. Mas agora não, estou encurralada no meu silêncio, não sei se
é da medicação se da idade. Tenho que saber cuidar do meu filho, queria ter
mais independência para tal, mas por ora tenho que deixar a minha mãe cuidar de
mim e do meu filho. Às vezes sinto-me uma criança, talvez o seja mesmo, ou
talvez seja uma faceta das várias que compõem a minha personalidade. Sou
bipolar, deve ser por isso. Mas não acho que o seja, acho que o ser humano é
composto de várias facetas e por essa mesma razão , às vezes sou criança, às
vezes sou a adulta que tenho mesmo que ser. Sou uma cabeça no ar, esqueço-me do
sítio onde ponho as coisas, mas penso que isso seja pelo facto de querer viver
intensamente o futuro sem pensar no presente. Há pessoas que têm vidas
invejáveis, escrevem romances, compõem músicas, quem me dera poder ser tudo
isso, mas não sou, tenho que me resignar à minha condição humana de não ter
nascido com o dom da escrita ou da música. Pensando bem apesar de tudo até
tenho uma boa vida. Tenho uma casa decorada alegremente por mim e que as
pessoas gostam quando nos visitam, tenho um filho de 7 anos que tem um coração
puro e que sabe dar valor às coisas que se passam e está quase sempre bem
disposto, excepto na hora do banho. Por tudo isso acho que tenho sempre bons
motivos para lhe facultar o que ele me pede e que por vezes são coisas que ele
não usa muito. Enfim... Também sou um pouco influenciável e impulsiva
negativamente, ou era, já não sei... Mas a vida é tão breve, tão instantânea...
Talvez eu não saiba gerir a instantaneidade da vida e dar-lhe um percurso mais
estável. Mas sou positiva, acredito sempre na parte mais positiva do ser humano
e das pessoas que me circundam.
Sempre fui muito
influenciável e impulsiva, sempre me deixei levar pela vida, lutando sempre pelo
meu futuro e sabendo sempre qual o rumo a tomar, nem que esse rumo fosse apenas
o próximo instante. Mas agora estou mais selectiva, apesar de ter alguma inveja
de algumas vidas, inveja essa que tento camuflar com um sorriso, com calma e
serenidade, nunca deixando transparecer o mínimo sinal disso.
Às vezes apetece-me deixar de
ser eu, passar para outra pessoa com outro cérebro mais alinhado com a vida,
mas pensando bem, já consegui fazer muitas coisas na vida, aventuras que nunca
mais acabam e que daria um belo livro.
Aos 22 anos, portanto em
1996, o meu pai comprou-me um carro, um seat marbella , em segunda mão que
custou 250 contos. Por essa altura já estava a trabalhar e a estudar direito à
noite e a estudar música durante o dia. Foi um carro que me proporcionou a
minha liberdade de movimentos, para além daquela que já tinha através de
transportes públicos. Transportou-me de norte a sul do país , fiz viagens até
mais não e transportei muitos amigos nele. Amigos, é coisa que felizmente não
me faltam, mesmo nas horas difíceis e tenho pena de não lhes poder corresponder
como deve ser. De certa forma até tenho correspondido, mas agora a vida é
outra.
Amigo salva,
Amigo aquece,
Amigo esquece
Às vezes acho que sou má
pessoa que não correspondo, lá está, quero fazer tudo e não faço nada, vou-me
transmutando no vagar das horas que por vezes são tão rápidas. A minha mãe
queixa-se que eu falo pouco, mas por vezes prefiro estar introspectiva, estar
comigo mesma, esquecer que é esta a minha condição. Queria ser livre como fui
durante os anos que estive sem a minha mãe por perto, cheia de amigos sempre
para falar e perscrutar. Sempre gostei mais da companhia dos amigos e queria
continuar a tê-los por perto, mas não tenho, sinto-me tão só. Não sei se é bom
ou mau. É bom porque parei e ouvi a minha voz interior, e é isto que estou a
fazer, a ouvir a minha voz interior. E o que é que me diz a minha voz interior,
diz-me que quer gritar bem alto a sua liberdade, que quer saber tudo sem nada
esquecer.
Um dia apaixonei-me pelo meu
psicólogo, sim, porque a conselho de uma das minhas tias eu deveria ir a um
psicólogo, depois de ter sido descoberta a minha doença que eu recusei sempre
ter, tinha em mim uma grande revolta porque adoeci porque a minha família se
intrometeu demasiado na minha vida e não me deixou vivê-la como eu sempre
desejei. Mas lá estou eu com a mania de pôr as culpas em cima dos outros,
quando a culpa é minha.
O meu psicólogo foi a
primeira pessoa que me disse que eu sou livre para decidir, mas a questão monetária
vem sempre ao de cima, está sempre acima de tudo o que de mau ou bom possa
acontecer na nossa vida. Eu não posso deixar para trás o facto de ter sido sempre ajudada monetariamente pela família. Se posso decidir noutro sentido, no sentido da não intrusão, posso, é um facto, mas não posso deixar de lado a gratidão, palavra que colide com a palavra liberdade de escolha.